ALICERÇAR O FUTURO

Quando a primeira edição de um festival corre da forma como os nossos Encontros Sonoros Atlânticos correram em 2021, a responsabilidade é proporcional ao sucesso. Chegados então a 2022, eis que surge perante nós o inevitável dilema das segundas temporadas: como assegurar continuidade e inovação, de uma forma consistente e equilibrada? Como construir sobre o edificado, sem deixar de correr riscos?

As ideias que serviram de base à edição inaugural dos Encontros mantém-se inalteradas: uma ligação profunda aos Açores, terra de origem de Francisco de Lacerda, e aos seus lugares e comunidades; e, partindo da figura tutelar do compositor açoriano, uma aposta determinada na nossa música e nos nossos músicos, com um especial destaque para a nova geração de criadores e intérpretes.

Mas, na edição deste ano dos Encontros, temos a ambição de ir mais longe. Queremos fortalecer os nossos laços com a comunidade artística local, dando o palco a intérpretes açorianos, e reforçando parcerias com as suas instituições. Queremos levar o público a descobrir outros espaços únicos, através de concertos invulgares e surpreendentes; e queremos intensificar o nosso compromisso feroz e inabalável com a criação musical portuguesa, sem preconceitos estéticos.

O programa que resulta deste compromisso é entusiasmante e diversificado: teremos a redescoberta da (raramente ouvida) música para cordas de Lacerda, no local onde tudo começou; e das suas belíssimas Fanfarras, num estimulante programa de nova música Ibérica; uma viagem sonora pela memória do Atlântico, inspirada por diversos idiomas musicais; um concerto preenchido quase na totalidade por compositores portugueses ainda em actividade; uma performance-instalação singular para violoncelo e electrónica; e teremos ainda a estreia mundial da obra vencedora do recém-criado Prémio de Composição Francisco de Lacerda (que constatamos, com orgulho, ser o maior prémio para jovens compositores em Portugal da actualidade). Esta estreia irá acontecer no belíssimo concerto orquestral de encerramento dos Encontros, um concerto repleto de pontes geográficas e temporais; por fim, ainda nos Encontros, iremos apresentar o resultado inicial de um projecto paralelo, mas intimamente relacionado com estes: o primeiro volume de uma edição crítica da música orquestral de Francisco de Lacerda - um trabalho editorial de fôlego, que vem finalmente colmatar uma lacuna antiga no tratamento do seu espólio orquestral.

Em tempos de tumulto como os que actualmente vivemos, a arte e a cultura assumem um papel essencial na nossa vida comunitária: são porventura a forma mais eficaz de combater a barbárie, de substituir a desumanização pela empatia, de nos afastar mais um pouco do abismo. Mas para que o possam fazer, precisam de ser apoiadas de uma forma coerente e sustentada, que permita aos artistas experimentar, falhar e recomeçar - para depois falhar melhor. Na Associação Francisco de Lacerda, vemos a segunda edição dos Encontros como mais um passo nessa direção a um apoio sustentado à música e à cultura portuguesas. Um passo que, esperamos, seja o segundo de muitos.

Vasco Mendonça
junho 2022


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